sexta-feira, 17 de abril de 2015

SONETO DE JOSÉ RÉGIO - 1969



Somos um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio,
fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando
pancadas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião,
um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as
orelhas é capaz de sacudir as moscas...

Razão tinha José Régio

Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado ;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento ;
Cresce a miséria ao povo amordaçado ;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto á fome o povo se estiola,
Certo Santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e vilão,

Também faz o pequeno "sacrifício"
De trinta contos -só!- por seu ofício
Receber, a bem dele...e da nação.


Soneto de José Régio, escrito em 1969



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